Donald Trump iniciou nesta sexta-feira uma viagem diplomática de alto risco para a Ásia, visando fortalecer a liderança dos Estados Unidos em um cenário global em constante mudança. A agenda do presidente americano inclui visitas à Malásia, Japão e Coreia do Sul, além da possibilidade de um encontro inédito com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur.
A viagem ganha contornos ainda mais significativos com a confirmação do primeiro encontro presencial de Trump com o presidente chinês, Xi Jinping, neste segundo mandato. O principal objetivo é conter a crescente influência de Pequim no Sudeste Asiático e restabelecer o diálogo após um período de tensões comerciais. “O encontro com Xi Jinping é crucial para redefinir as relações bilaterais”, observou um analista político.
No entanto, a potencial reunião com Lula, em meio a recentes atritos entre Brasil e EUA, adiciona uma camada extra de complexidade à jornada de Trump. Segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, o presidente iniciou sua viagem rumo à Malásia, onde participará do jantar de abertura da cúpula da Asean neste domingo.
A agenda de domingo de Trump está repleta de reuniões bilaterais com líderes regionais, incluindo o primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim, o primeiro-ministro do Camboja, Hun Manet, e o primeiro-ministro da Tailândia, Anutin Charnvirakul. Um jantar de trabalho com líderes da Asean e representantes dos Estados Unidos encerrará o dia.
Apesar da expectativa em torno de um encontro entre Trump e Lula no domingo, a Casa Branca não incluiu o compromisso na agenda oficial divulgada. No entanto, nos bastidores, assessores dos dois governos consideram “altamente provável” a realização de uma reunião à margem da cúpula, visando uma reaproximação após o tarifaço imposto pelos EUA sobre produtos brasileiros.
Espera-se que Lula insista na retirada das tarifas e proponha novas parcerias comerciais. O governo brasileiro acredita que uma conversa direta pode destravar pautas econômicas e abrir caminho para cooperação em áreas como energia, tecnologia e meio ambiente. A cúpula da Asean também representa uma oportunidade para o Brasil se consolidar como um importante interlocutor entre o Sul Global e as grandes potências.
Além de reuniões com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e empresários asiáticos interessados em investir no país, Lula mantém sua agenda flexível para um possível encontro com Trump. O historiador Roberto Moll, da Universidade Federal Fluminense (UFF), expressa otimismo em relação à realização do encontro, mas ressalta a importância da cautela.
Moll adverte que Trump tem demonstrado a tendência de utilizar encontros diplomáticos como forma de pressão, inclusive recorrendo a estratégias de desinformação. No entanto, ele acredita que Lula e a diplomacia brasileira estão preparados para lidar com o presidente americano, e que o governo dificilmente aceitará negociar qualquer ponto que comprometa a soberania nacional. “Acredito que busquem negociar as tarifas em consonância com ampliação de parcerias comerciais, possibilidades de exploração de terras raras e atuação das Big Techs. Mas acredito que o governo brasileiro, mesmo no que se refere a esses temas, não vai abrir mão da soberania”, avaliou.
As relações entre os dois presidentes têm sido marcadas por altos e baixos. Uma recente videoconferência de cerca de 30 minutos foi descrita por ambos como “muito boa”, com discussões sobre comércio, tarifas e sanções ao Brasil. No entanto, em agosto, Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, afetando principalmente o setor pecuário, o que gerou críticas de Lula, que destacou que medidas unilaterais prejudicam a soberania nacional e podem gerar retaliações comerciais.
Lula tem buscado fortalecer parcerias com países asiáticos, como a Indonésia, diversificando seus aliados e expandindo o comércio e os investimentos. A aproximação com Trump é vista como uma tentativa de recuperar espaço comercial perdido. Por outro lado, Trump busca fortalecer a relação com o Brasil, aproveitando a viagem à Ásia para conter influências externas, especialmente da China, e proteger setores estratégicos, como terras raras e petróleo.
A Asean, criada em 1967, desempenha um papel fundamental como um dos principais blocos de diálogo e comércio da região, reunindo 10 países, incluindo Malásia, Indonésia e Vietnã. Além da cooperação econômica, o grupo é palco de disputas geopolíticas, especialmente entre EUA e China. A presença de Trump na cúpula da Asean reforça o interesse de Washington em retomar espaço estratégico, enquanto para o Brasil, a participação representa uma política de diversificação de mercados e fortalecimento de laços com o Oriente.
A crescente presença da China na América Latina tem se tornado um ponto central da disputa geopolítica. Nos últimos 20 anos, Pequim ampliou significativamente os investimentos em infraestrutura, energia e mineração na região, ocupando espaços que antes eram hegemonizados por Washington. Roberto Moll argumenta que a China se consolidou como um polo alternativo do capital transnacional, oferecendo um modelo que confronta o liberalismo econômico tradicional defendido pelos Estados Unidos.
Essa competição explicaria a tentativa de Trump de restringir a influência chinesa em setores estratégicos, como o de terras raras e o de petróleo, buscando condições mais favoráveis para os interesses norte-americanos. Nesse cenário, o Brasil se encontra em uma posição delicada, enfrentando tarifas impostas pelo governo Trump e, ao mesmo tempo, sendo pressionado a equilibrar a relação com Washington e preservar a cooperação com Pequim.
Fonte: http://www.metropoles.com






